sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Igreja da Penha

 

Superação e Fé na Rocha: Mestre Célio D'Lua e Professora Lela na Igreja da Penha

No domingo, dia 06 de setembro de 2026, subimos ao topo do maciço rochoso do bairro da Penha para conhecer um dos santuários mais tradicionais e imponentes do Rio de Janeiro.



Mestre Célio D'Lua e Professora Lela no alto do Santuário de Nossa Senhora da Penha (06/09/2026).

A Lenda da Cobra e o Nascimento da Capela

A história da Igreja da Penha remonta ao início do século XVII. Segundo a tradição local, por volta de 1635, o capitão português Baltazar de Abreu Cardoso caminhava pela sua propriedade no alto da rocha quando foi surpreendido por uma enorme serpente.

Sendo um homem de profunda fé católica e sem ter como se defender, o capitão clamou pela intervenção de Nossa Senhora, gritando: "Minha Nossa Senhora, valei-me!". Nesse momento, uma grande cobra-sucuri apareceu e atacou a serpente, salvando o capitão. Em sinal de gratidão pelo milagre recebido, Baltazar construiu uma pequena capela no topo do penhasco de pedra, que com o passar dos séculos tornou-se o grande santuário que conhecemos hoje.


A imponência da arquitetura no alto da grande rocha.



A vista panorâmica da Zona Norte do Rio de Janeiro.

Os 382 Degraus Esculpidos na Pedra

Durante mais de dois séculos, o acesso ao topo do penhasco era feito por caminhos íngremes e perigosos entre as pedras. Foi somente no ano de 1890 que nasceu a promessa de construção de uma escadaria digna para os fiéis.

Um devoto chamado Simão iniciou o trabalho braçal de esculpir degrau por degrau diretamente na rocha maciça de granito. O feito hercúleo resultou na famosa escadaria de 382 degraus, inaugurada oficialmente em 1911. Desde então, a subida tornou-se um símbolo nacional de pagamento de promessas, onde milhares de devotos sobem a pé ou de joelhos em sinal de devoção, superação e gratidão.




Subindo os 382 degraus talhados diretamente na rocha do penhasco.

Resiliência, Força e a Firmeza da Rocha

Para nós do Centro de Treinamento Marcial Cabapuã, percorrer essa escadaria histórica traz uma lição profunda sobre resiliência. Na Capoeira, cada degrau subido representa os anos de treino, a disciplina para encarar os desafios da vida e o respeito à caminhada.

Estar no topo do Santuário da Penha é contemplar o Rio de Janeiro sob a ótica da resistência cultural e espiritual. Assim como a pedra sólida que sustenta a igreja, a Capoeira firma suas raízes no chão para resistir ao tempo e erguer homens e mulheres de valor.



"Cada degrau é uma vitória. A firmeza da nossa arte vem da capacidade de subir com fé, humildade e perseverança." — Mestre Célio D'Lua

Galeria de Registros Exclusivos





Cabapuã Capoeira • Fé, Tradição e Força Cultural

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Museu do Amanhã

 

Reflexões sobre o Futuro: Mestre Célio D'Lua e Professora Lela no Museu do Amanhã

Na nossa passagem pelo Rio de Janeiro, em setembro de 2026, visitamos a Praça Mauá para explorar um dos espaços culturais mais inovadores do mundo: o Museu do Amanhã.




Mestre Célio D'Lua e Professora Lela na estrutura icônica do Museu do Amanhã na Praça Mauá.

Uma Obra-Prima da Arquitetura Orgânica e Sustentável

Inaugurado em dezembro de 2015 como parte do projeto de revitalização da Zona Portuária do Rio de Janeiro, o Museu do Amanhã foi projetado pelo renomado arquiteto espanhol Santiago Calatrava. Inspirado na vegetação das bromélias da Mata Atlântica, o edifício parece flutuar sobre o Píer Mauá e a Baía de Guanabara.

O prédio possui uma estrutura sustentável revolucionária: conta com espinhas dorsais de aço e estruturas móveis no teto que acompanham o movimento do sol para otimizar a captação de energia solar através de painéis fotovoltaicos. Além disso, a água da baía é utilizada no sistema de refrigeração do museu e devolvida purificada ao mar.


A geometria futurista sobre a Baía de Guanabara.


O diálogo entre a luz natural, a água e o concreto.

As Cinco Perguntas que Moldam o Amanhã

Diferente de museus tradicionais que guardam relíquias do passado, o Museu do Amanhã é um museu de ciências aplicadas focado na reflexão sobre o Antropoceno — a era em que a atividade humana altera drasticamente o planeta. A exposição principal convida os visitantes a uma jornada dividida em cinco grandes áreas narrativas:

  • De onde viemos? (Cosmos): Compreendendo a origem do universo, da matéria e a teia interconectada da vida na Terra.
  • Quem somos? (Terra): Analisando como o ecossistema funciona, o DNA e a riqueza da biodiversidade do planeta.
  • Onde estamos? (Antropoceno): A percepção do impacto humano no meio ambiente, na pegada ecológica, no clima e nas cidades.
  • Para onde vamos? (Amanhãs): A exploração das tendências de crescimento populacional, avanços tecnológicos e escassez de recursos nos próximos 50 anos.
  • Como queremos ir? (Nós): A reflexão sobre a ética, a convivência comunitária e os valores que precisamos cultivar hoje para construir o amanhã.

Imersão interativa nas projeções e telas multimídia da exposição.

Ancestralidade e Futuro na Visão da Capoeira

Para nós, educadores e praticantes de Capoeira no Centro de Treinamento Marcial Cabapuã, a reflexão proposta pelo museu ressoa diretamente com a filosofia das nossas artes tradicionais. A Capoeira sempre foi uma tecnologia de sobrevivência, de preservação da memória e de reinvenção social.

O futuro não é algo pronto que nos aguarda; é algo que construímos no presente a cada gesto, a cada ensinamento e a cada roda. Preservar o meio ambiente, honrar as memórias ancestrais e formar jovens com valores éticos é o nosso verdadeiro trabalho para garantir que os amanhãs sejam plurais, sustentáveis e humanos.



"O amanhã começa nas escolhas que fazemos hoje. Honrar a história dos nossos ancestrais é a chave para construir um futuro com sabedoria." — Mestre Célio D'Lua

Registros do Passeio no Píer Mauá





Cabapuã Capoeira • União de Tradição, Cultura e Consciência

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Cristo Redentor

Aos Pés do Redentor: Fé, História e Capoeira no Ponto Mais Alto do Rio

No sábado, dia 05 de setembro de 2026, nossa jornada pelo Rio de Janeiro nos levou ao topo do Corcovado. Contemplar o Cristo Redentor de perto é uma experiência de profunda conexão espiritual, histórica e cultural.



Mestre Célio D'Lua e Professora Lela no Cristo Redentor (05/09/2026).

A Construção do Gigante no Corcovado

A ideia de construir um monumento religioso no topo do Corcovado surgiu no meio do século XIX, mas ganhou força real na década de 1920, em preparação para o Centenário da Independência do Brasil. Projetado em estilo Art Déco, o Cristo Redentor foi erguido entre 1922 e 1931, enfrentando desafios engenhosos de logística para transportar toneladas de concreto e pedra-sabão até o topo da montanha.

A estrutura possui 30 metros de altura, além de 8 metros de pedestal, e seus braços abertos somam uma envergadura de 28 metros. É uma obra que une a engenharia civil, a arte monumental e a fé de um país inteiro.



Os Três Criadores Homenageados no Acesso ao Monumento

Ao visitar o topo do Corcovado, é possível encontrar os bustos de três figuras centrais que tornaram essa obra possível, cada uma contribuindo com sua visão e genialidade:

  • Heitor da Silva Costa (Engenheiro e Autor do Projeto): O brasileiro responsável pelo cálculo estrutural, pela concepção técnica e pela coordenação geral da obra. Foi ele quem decidiu revestir a estátua com milhares de pequenos triângulos de pedra-sabão, garantindo durabilidade contra as intempéries do tempo.
  • Paul Landowski (Escultor Francês): O artista plástico franco-polonês encarregado de modelar a cabeça e as mãos do Cristo em tamanho real no seu ateliê em Paris, peças que depois foram transportadas ao Brasil e montadas no topo do morro.
  • Carlos Oswald (Pintor e Desenhista): O artista plástico brasileiro que desenhou o esboço final da imagem do Cristo com os braços abertos em formato de cruz, além de planejar a disposição do pedestal e os detalhes conceituais da imagem.


Registros das homenagens e da memória dos idealizadores no topo do Corcovado.

A Capela de Nossa Senhora Aparecida

Poucos visitantes sabem, mas no interior do pedestal octogonal do monumento existe a Capela de Nossa Senhora Aparecida. Consagrada no momento da inauguração da estátua em 12 de outubro de 1931, a capela abriga celebrações de missas, batizados e casamentos.

É um espaço íntimo de reflexão e oração encravado sob o próprio monumento, onde a padroeira do Brasil acolhe os fiéis que sobem a montanha em busca de benção e renovação espiritual.

A Capela de Nossa Senhora Aparecida, situada na base do pedestal.

Cultura, Arte e Elevação Espiritual

Para nós, capoeiristas do Centro de Treinamento Marcial Cabapuã, pisar nesse local sagrado e de apelo mundial reforça a dimensão da nossa própria caminhada. A arte, seja ela expressa na arquitetura, na escultura ou no jogo da Capoeira, exige dedicação, base sólida e propósito.

Estar de braços abertos para o mundo, como o Redentor, é a postura de quem acolhe o aprendizado, respeita a história dos que vieram antes e segue firme no seu caminho.

"No alto do Corcovado, olhamos para a imensidão do mundo e lembramos que a verdadeira força vem da humildade e do respeito às nossas raízes." — Mestre Célio D'Lua

Outros Registros Desta Visita Inesquecível





Cabapuã Capoeira • Valorizando a História, a Arte e a Ancestralidade

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Escadaria Selarón

Do Mosaico à Vadiagem: Mestre Célio D'Lua e Professora Lela na Escadaria Selarón

No feriado de 7 de setembro de 2026, a Capoeira da Cabapuã marcou presença em um dos cenários mais emblemáticos e coloridos do Rio de Janeiro: a histórica Escadaria Selarón.


Mestre Célio D'Lua e Professora Lela registrando a força da Capoeira nos degraus da Selarón (Setembro de 2026).

A História Viva da Escadaria Selarón

Entre os bairros da Lapa e de Santa Teresa, encontra-se uma obra monumental que nasceu da obsessão, da disciplina e da paixão de um único homem por sua arte. A Escadaria Selarón carrega esse nome em homenagem ao artista plástico chileno Jorge Selarón (1947–2013).



Selarón estabeleceu-se no Rio de Janeiro nos anos 1990 e, incomodado com o estado de abandono da escadaria em frente à sua casa, decidiu reformá-la por conta própria. O que começou como uma simples restauração com azulejos azuis, amarelos e verdes — em homenagem ao povo brasileiro — transformou-se em um trabalho contínuo que durou mais de duas décadas.

Com o passar dos anos, turistas de todas as partes do mundo passaram a enviar azulejos para o artista. Hoje, a escadaria conta com mais de 2.000 azulejos vindos de mais de 60 países. Selarón declarava que essa era uma "obra viva e mutante", que só terminaria no dia de sua morte — o que tragicamente ocorreu em 2013, nos mesmos degraus que o consagraram mundialmente.



Capoeira, Arte e Identidade

Subir os 215 degraus revestidos de história ao lado da Professora Lela foi um momento de reflexão sobre como a arte transforma espaços e vidas. Assim como a Capoeira, a obra de Selarón é feita de resistência, de retalhos culturais que se unem para formar um corpo único, forte e expressivo.

No chão carioca, onde a Capoeira também moldou sua história de luta e afirmação cultural, nossa presença como capoeiristas reafirma que o corpo em movimento e a preservação das nossas tradições caminham juntos. A arte não pede licença; ela se impõe pela beleza, pela mandinga e pela perseverança.

"Cada azulejo da Selarón carrega a alma de um povo, assim como cada golpe e cantiga de Capoeira carrega a ancestralidade de quem veio antes de nós." — Mestre Célio D'Lua

Esta visita ao Rio de Janeiro renova nossas energias para seguir difundindo a filosofia e o ensino da Capoeira no Centro de Treinamento Marcial Cabapuã, inspirando nossos alunos a enxergarem o valor da arte, da disciplina e da história em cada passo do caminho.


Cabapuã Capoeira • Preservando a Tradição e a Cultura Marcial

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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Cais do Valongo: Memória, Ancestralidade e Resistência

Território de Memória & Ancestralidade

Cais do Valongo: O Solo Sagrado da Diáspora e a Resistência Afro-Brasileira

Relato de visita realizada em 06/09/2026 por Roscélio P. Silva (Mestre Célio D'Lua) — Mestre de Capoeira, Terapeuta e Pesquisador dos Saberes Ancestrais.

O Registro da História

No domingo, dia 06 de setembro de 2026, estive em vivência no Cais do Valongo e na região do entorno da Pequena África, no Rio de Janeiro. Percorrer aquele solo não é apenas realizar um passeio turístico; é pisar em um dos sítios arqueológicos e de memória mais importantes do mundo.

O Cais do Valongo foi o principal ponto de desembarque de africanos escravizados nas Américas — estimando-se que por ali passaram cerca de um milhão de homens, mulheres e crianças sequestrados de suas terras originais. Reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO, o local é um marco da dor, mas, acima de tudo, da resiliência e fundação da identidade cultural brasileira.


A Diáspora, a Capoeira e o Valor Cultural

Para a Capoeira e as manifestações de matriz africana, a região que compreende o Valongo, a Pedra do Sal e a Praça Onze — historicamente batizada por Heitor dos Prazeres como Pequena África — representa a espinha dorsal de nossa resistência cultural.

Neste território, os povos despojados de sua liberdade física teceram redes de solidariedade, mantiveram vivos seus cultos aos orixás e ancestrais, e moldaram as bases da capoeiragem urbana. A capoeira não se consolidou apenas como arte marcial ou jogo corporal, mas como um sistema de defesa, linguagem codificada de liberdade e preservação da cosmologia africana diante da opressão.

Diálogo com Magnum: Guia e Historiador Carioca

Registros da conversa conduzida durante a visita técnica ao território histórico:

Mestre Célio D'Lua: Magnum, qual é o papel crucial de resgatar o Valongo no contexto atual para quem trabalha com cultura afro-brasileira?
Magnum (Historiador): "O Valongo é a prova material de um processo de apagamento que tentou ser imposto. Quando escavamos e preservamos este solo, trazemos à tona não só a memória do sofrimento, mas a capacidade extraordinária de reorganização social e cultural do povo negro no Rio de Janeiro."
Mestre Célio D'Lua: Como você enxerga a conexão direta desse espaço com a salvaguarda e o fundamento da Capoeira?
Magnum (Historiador): "A Capoeira e os batuques eram os instrumentos de coesão nos quilombos urbanos e nas docas. Locais como a Pedra do Sal eram portos de trabalho e de mandinga. A capoeiragem nasceu e se fortalceu nessas esquinas da Pequena África como uma tecnologia de sobrevivência e afirmação."



Considerações do Mestre

Retornar desse território fortalece nosso compromisso pedagógico e filosófico frente ao Centro de Treinamento Marcial Cabapuã Brasil. Ensinar Capoeira e artes de combate é, fundamentalmente, transmitir a história daqueles que usaram o corpo e a sabedoria ancestral como escudo e lança.

A preservação da memória do Valongo nos lembra diariamente que a nossa arte é sagrada, fundamentada no sangue, na mandinga e na vitória da preservação cultural afro-brasileira.

© 2026 Centro de Treinamento Marcial Cabapuã Brasil | Mestre Célio D'Lua

Guarulhos • São Paulo • Brasil

CAIS DO VALONGO, PEQUENA ÁFRICA E O CEMITÉRIO DOS PRETOS NOVOS

Memória, Ancestralidade & Tradição Marcial

CAIS DO VALONGO, PEQUENA ÁFRICA E O CEMITÉRIO DOS PRETOS NOVOS

A Matriz Ancestral que Forjou o Samba e o Fundamento da Capoeira

Para compreender a essência da Capoeira e a profundidade das tradições de matriz africana no Brasil, é indispensável pisar no solo sagrado da Pequena África, na zona portuária do Rio de Janeiro. É nesse território que repousa o Cais do Valongo — o maior ponto de desembarque de africanos escravizados das Américas — e o comovente Cemitério dos Pretos Novos. Longe de ser apenas um registro do sofrimento, esta região tornou-se o epicentro de resistência cultural, onde o combate invisível da sobrevivência deu origem à mandinga do samba e ao fundamento sagrado do jogo de Capoeira.

Sítio Arqueológico do Cais do Valongo: Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO e portal da diáspora africana no Brasil.

1. O Cais do Valongo: O Maior Portal da Diáspora Africana

Determinado em 1774 pelo Marquês do Lavradio para afastar o comércio de escravizados do centro urbano colonial, o Cais do Valongo tornou-se a engrenagem principal do tráfego transatlântico de seres humanos. Entre o final do século XVIII e a metade do século XIX, estima-se que mais de 1 milhão de africanos desembarcaram em suas pedras.

A região do Valongo não era apenas um porto, mas um complexo urbano voltado ao tráfico: abrangia os lazaretos (locais de quarentena), os armazéns de leilão na antiga Rua do Valongo (atual Rua Camerino) e as casas de engorda. Aterrado em 1843 para receber a Princesa Teresa Cristina (renomeado como Cais da Imperatriz) e sepultado sob as reformas urbanas do século XX, o Valongo foi redescoberto em 2011 durante as obras do Porto Maravilha, emergindo como Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO e marco físico incontestável da história nacional.

2. O Cemitério dos Pretos Novos: Onde a Terra Guarda a Memória

Aqueles que não resistiam aos maus-tratos, às doenças da travessia no Atlântico ou aos primeiros dias em solo brasileiro eram chamados de "Pretos Novos". Seus corpos eram descartados no Cemitério dos Pretos Novos (localizado no atual bairro da Gamboa), que funcionou entre 1769 e 1830.

Calcula-se que entre 20 mil e 30 mil jovens e crianças africanas tenham sido sepultados em valas comuns no local. Redescoberto casualmente em 1996 durante uma reforma residencial, o espaço abriga hoje o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN). O sítio arqueológico expõe os fragmentos ósseos, miçangas e pertences pessoais que atestam a dimensão da tragédia e a necessidade premente de preservação da memória ancestral.




Pedra do Sal no Morro da Conceição: Território sagrado, berço do samba urbano e refúgio histórico dos capoeiras.

3. A Terceira Margem do Atlântico: A Formação da Pequena África

Cunhado pelo artista e intelectual Heitor dos Prazeres, o termo Pequena África designa a região portuária que engloba a Saúde, a Gamboa e a Santo Cristo, estendendo-se até a Praça Onze. Após a abolição formal e com a migração maciça de baianos para o Rio de Janeiro no final do século XIX, essa região tornou-se um enclave de sobrevivência urbana, solidariedade e preservação cultural.

Sob a liderança espiritual e comunitária de figuras como Tia Ciata, Tia Perciliana e Tia Bebiana, os terreiros de Candomblé e os zungus da Pequena África funcionavam como refúgio seguro. Nesses espaços sacralizados, a ancestralidade era mantida viva através da gastronomia, dos cantos, dos batuques e da organização comunitária.

4. O Impacto na Matriz Cultural: A Mandinga do Samba e o Fundamento da Capoeira

O cruzamento de etnias no território do Valongo — povos Banto (Angola, Congo) e Iorubá/Jeje — unificou a dança, o ritmo e a defesa em uma única linguagem de resistência corporal e filosófica:

O Samba da Pequena África A Capoeira dos Maltas Portuários
Berço do Samba Urbano: Na Pedra do Sal e nos quintais da Tia Ciata, o samba de roda baiano transformou-se no samba carioca. O primeiro samba gravado, "Pelo Telefone" (1916), nasceu nesse contexto de celebração e afirmação. Os Maltas do Porto: Os trapicheiros, estivadores e marinheiros do Valongo formavam a espinha dorsal das famosas maltas de capoeira do Rio de Janeiro (como os Nagoas e Guaiamuns), dominando a região portuária.
Ritmo & Ancestralidade: O tambor, o pandeiro e a umbigada (semba) não eram mero entretenimento, mas veículos de conexão espiritual, mantendo a memória dos antepassados viva contra o apagamento social. Corpo como Arma & Arte: A Capoeira no porto era a estratégia de combate real contra a repressão policial e a brutalidade urbana. A mandinga, o ganchar e a rasteira tornaram-se a biomecânica da liberdade.

O Combate Invisível e a Preservação da Memória

Entender a história do Cais do Valongo e da Pequena África é reconhecer que a Capoeira não é uma mera atividade física ou uma dança acrobática: é um arquivo vivo de resistência e uma filosofia de vida.

O berimbau que toca na roda ecoa o lamento e a vitória dos que passaram pelo Valongo. Vencer o combate invisível do esquecimento e honrar a memória dos Pretos Novos é o dever fundamental de todo capoeirista, mestre e pesquisador que busca a verdadeira maestria na tradição marcial brasileira.

Grupo Cabapuã Capoeira | Centro de Treinamento Marcial Cabapuã Brasil

Preservando a Tradição, o Fundamento e a Ancestralidade.