quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Cais do Valongo: Memória, Ancestralidade e Resistência

Território de Memória & Ancestralidade

Cais do Valongo: O Solo Sagrado da Diáspora e a Resistência Afro-Brasileira

Relato de visita realizada em 06/09/2026 por Roscélio P. Silva (Mestre Célio D'Lua) — Mestre de Capoeira, Terapeuta e Pesquisador dos Saberes Ancestrais.

O Registro da História

No domingo, dia 06 de setembro de 2026, estive em vivência no Cais do Valongo e na região do entorno da Pequena África, no Rio de Janeiro. Percorrer aquele solo não é apenas realizar um passeio turístico; é pisar em um dos sítios arqueológicos e de memória mais importantes do mundo.

O Cais do Valongo foi o principal ponto de desembarque de africanos escravizados nas Américas — estimando-se que por ali passaram cerca de um milhão de homens, mulheres e crianças sequestrados de suas terras originais. Reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO, o local é um marco da dor, mas, acima de tudo, da resiliência e fundação da identidade cultural brasileira.


A Diáspora, a Capoeira e o Valor Cultural

Para a Capoeira e as manifestações de matriz africana, a região que compreende o Valongo, a Pedra do Sal e a Praça Onze — historicamente batizada por Heitor dos Prazeres como Pequena África — representa a espinha dorsal de nossa resistência cultural.

Neste território, os povos despojados de sua liberdade física teceram redes de solidariedade, mantiveram vivos seus cultos aos orixás e ancestrais, e moldaram as bases da capoeiragem urbana. A capoeira não se consolidou apenas como arte marcial ou jogo corporal, mas como um sistema de defesa, linguagem codificada de liberdade e preservação da cosmologia africana diante da opressão.

Diálogo com Magnum: Guia e Historiador Carioca

Registros da conversa conduzida durante a visita técnica ao território histórico:

Mestre Célio D'Lua: Magnum, qual é o papel crucial de resgatar o Valongo no contexto atual para quem trabalha com cultura afro-brasileira?
Magnum (Historiador): "O Valongo é a prova material de um processo de apagamento que tentou ser imposto. Quando escavamos e preservamos este solo, trazemos à tona não só a memória do sofrimento, mas a capacidade extraordinária de reorganização social e cultural do povo negro no Rio de Janeiro."
Mestre Célio D'Lua: Como você enxerga a conexão direta desse espaço com a salvaguarda e o fundamento da Capoeira?
Magnum (Historiador): "A Capoeira e os batuques eram os instrumentos de coesão nos quilombos urbanos e nas docas. Locais como a Pedra do Sal eram portos de trabalho e de mandinga. A capoeiragem nasceu e se fortalceu nessas esquinas da Pequena África como uma tecnologia de sobrevivência e afirmação."



Considerações do Mestre

Retornar desse território fortalece nosso compromisso pedagógico e filosófico frente ao Centro de Treinamento Marcial Cabapuã Brasil. Ensinar Capoeira e artes de combate é, fundamentalmente, transmitir a história daqueles que usaram o corpo e a sabedoria ancestral como escudo e lança.

A preservação da memória do Valongo nos lembra diariamente que a nossa arte é sagrada, fundamentada no sangue, na mandinga e na vitória da preservação cultural afro-brasileira.

© 2026 Centro de Treinamento Marcial Cabapuã Brasil | Mestre Célio D'Lua

Guarulhos • São Paulo • Brasil